regressão à média

Uma das minhas grandes críticas à autoajuda é o fato de os livros fazerem elogios desmedidos ao leitor, sem que o autor jamais tenha visto quem é que compra o livro. Embora estes elogios sejam vazios e desprovidos de qualquer significado, há alguns argumentos em defesa desta prática.

Um deles diz respeito à sua capacidade de motivar as pessoas e fazer com que elas busquem seus objetivos com maior afinco. O tema já foi exaustivamente estudado em alguns dos mais importantes Experimentos em Psicologia* já realizados.

Skinner, por exemplo, explora o reforço positivo (elogios e recompensas) no condicionamento do comportamento.

Um experiente instrutor da Força Aérea israelense insistia, no entanto, que ocorria exatamente o oposto com seus cadetes: os que recebiam elogios pioravam sua performance, enquanto que os que levavam broncas melhoravam o desempenho. Uma observação correta, mas com uma explicação errada.

Quem matou a charada foi Daniel Kahneman que, recém-formado, servia ao Exército de seu país natal:

Via de regra, os elogios eram destinados aos pilotos que executavam suas manobras com perfeição, numa performance bem acima da média, ao passo que as broncas repreendiam os que cometiam erros grosseiros, bem abaixo das expectativas.

Como  todos eram pilotos experientes e bem treinados, resultados extremos (bons ou ruins) eram ocasionais e só poderiam ser atribuídos à sorte (ou à falta dela), dada a sua aleatoriedade.RegressaoAssim, depois de um resultado medíocre, a tendência natural do piloto era melhorar a performance, do mesmo modo que depois de um voo perfeito a tendência natural era piorar.

Como o próprio Kahneman adverte em Thinking, Fast and Slow, a regressão à média (como este fenômeno é conhecido) não envolve nenhuma relação de causa e efeito, isto é, a performance não melhora (ou piora) por causa do elogio (ou da bronca). São, portanto, eventos completamente independentes – e você não precisa de um Prêmio Nobel, como Kahneman, para entender isso.

É bom entender, portanto, que quando você está na lama a tendência natural é melhorar. Com ou sem elogio, com ou sem autoajuda. Isto não é mágica, nem milagre, nem autoajuda – é estatística. Mas, infelizmente, vale também quando você está por cima. Mesmo que você esteja lendo um livro de autoajuda.

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* À propósito, você já viu algum texto ou livro de autoajuda apresentar uma referência para o que diz? Um artigo ou estudo científico comprovando suas teorias? Não, né…?

3 comentários em “regressão à média”

  1. Genial, Rodolfo!
    Realmente a gente acha que a melhora tem uma causa mágica, né? Aí passa a acreditar naquilo. É melhor acreditar na nossa própria capacidade, não é?
    Obrigado pelo texto, Luiza.

  2. Thinking, Fast and Slow – Daniel Kahneman

    Acredito que há dois tipos de livros quando você está aprendendo sobre algum tema: os que lhe dão repertório e os que lhe ajudam a combinar melhor o repertório que você já tem. O Repertório é formado experiências, reais ou fictícias, em torno do objeto…

  3. Thinking, Fast and Slow – Daniel Kahneman

    Acredito que há dois tipos de livros quando você está aprendendo sobre algum tema: os que lhe dão repertório e os que lhe ajudam a combinar melhor o repertório que você já tem. O Repertório é formado experiências, reais ou fictícias, em torno do objeto…

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