autoestima e realidade

Livros de autoajuda vendem aos milhões, ao passo que casos de sucesso* são bem menos frequentes. Este simples descasamento já representa, por si só, um indício de que há algo errado nesta história.

Por que você dá ouvidos a uma fórmula que, visivelmente, não funciona? Afinal de contas, se todos os seus amigos já leram esses livros – e ninguém mudou de vida por causa disso – por que você acha que logo com você será diferente?

Uma das explicações é que temos a tendência de nos avaliar sob uma lente mais positiva do que a realidade aconselharia. Nossa autoestima sugere que somos mais espertos, mais bonitos e mais habilidosos.

Obviamente que a autoestima é um traço importantíssimo de nossa personalidade. É ela que faz com que aceitemos desafios e tenhamos motivação para encarar os obstáculos da vida. Mas a realidade é implacável quando a autoestima extrapola nossas reais capacidades.

Quando se pergunta a um grupo quem acha que tem uma inteligência acima da média, ou que dirige melhor do que a maioria, mais de 50% das pessoas levantam os braços. É uma irrefutável prova matemática de que nós nos avaliamos de forma irreal – pois, obviamente, só metade das pessoas pode estar acima da outra metade.

Ter vontade de estar acima da média não muda nada na sua avaliação, a menos que você realmente esteja fazendo algo para isso. Por isso, embora a autoestima seja fundamental na busca por seus objetivos, ela deve estar em sintonia com suas reais capacidades, sob pena de transformar-se numa incapacitante megalomania.

Tente, assim, dissociar sua autoestima das capacidades que você tem hoje. Concentre-se na sua capacidade em adquirir as capacidades necessárias a seus objetivos. Foque seus esforços em aprender a aprender.

Resista à tentação de confiar cegamente em sua autoavaliação e ouça mais a opinião das pessoas em cuja honestidade você confia. Estas opiniões valem muito mais do que a de autores que nunca lhe viram na vida e dependem de elogios vazios para vender livros.

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* Sempre vale lembrar que sucesso é uma conceito subjetivo e pode variar de uma pessoa para outra. Para uns é ganhar muito dinheiro, enquanto que outros buscam realizações mais modestas.

4 pensamentos em “autoestima e realidade”

  1. Concordo plenamente com sua opinião, mas tenho uma observação. Quando se pergunta a um grupo de pessoas “quem se acha acima da média”, a matemática não é irrefutável. Não é obvio que “só metade das pessoas pode estar acima da outra metade”. Pode-se considerar, por exemplo, a média de QI. Se num grupo de 10, 2 têm QI 20 e 8 têm QI 140, a média é 116. E assim teríamos 80% das pessoas acima da média. O limite de 50%, sob essa ótica, não existe.

  2. Caio, a observação faz sentido se você considerar uma distribuição desigual. Neste caso, deve-se considerar a mediana.
    Mas grupos/amostras aleatoriamente selecionados devem apresentar características semelhantes ao todo e, assim, a distribuição provavelmente será homogênea.
    Atenciosamente, Rodolfo.

  3. Tem razão, Rodolfo. Vi que meu exemplo é meramente matemático. O que se deve considerar é o perfil médio das pessoas em geral. Isso inclusive é tomado como parâmetro para dar rumo ao Direito, e tem uma aplicabilidade muito ampla. Parabéns pelo blog.

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