o golfinho benevolente

golfinho bonzinho?
golfinho bonzinho?

Volta e meia aparece na mídia a comovente história do náufrago, salvo da morte por um golfinho que o ajudou a nadar até uma praia próxima. A narração do episódio, sempre enfeitada por emocionados depoimentos dos sobreviventes, reforça a crença de que o golfinho é um animal amigo e bonzinho.

Mas será que é mesmo? Será que não existem golfinhos maus, que afogam os náufragos só por diversão?

A resposta a essa pergunta é: jamais saberemos.

E a justificativa é ainda mais simples: se o golfinho afoga o náufrago, não sobra ninguém para contar a história triste – e destruir a reputação do Flipper.

E assim cria-se a figura do golfinho bonzinho, ou benevolente: só ficamos sabendo das histórias com finais felizes. Exatamente como as lorotas da autoajuda.

Uma pessoa feliz ganha na Mega Sena e conta maravilhas sobre sua sorte, seu método de jogar, sua enorme perspicácia. Nenhum dos milhões que não ganharam se manifesta. Assim como o ganhador de hoje não se lembra das centenas ou milhares de vezes em que ele jogou e não ganhou.

Pense no caso do office-boy que virou presidente da empresa. É algo extremamente incomum e eu mesmo não me lembro de nenhum caso. Mas falam que você deve acreditar nisso. E só.

Ninguém fala o quanto esse cara ralou para chegar ali. Não dizem que ele acordava às cinco da manhã para estudar Inglês no telecurso e fazia bicos no fim de semana para comprar livros – que lia no trem. E não citam que, mesmo assim, a esmagadora maioria dos outros office-boys, mesmo os que se esforçam igualmente, vão morrer office-boys. Essas histórias não vendem livros.

A parte trabalhosa, eles não falam. Eu falo. Livros de autoajuda baseiam-se na irrisória proporção de pessoas que tiveram um momento de sorte, deixando de lado os milhões que fizeram exatamente a mesma coisa, sem os mesmos resultados.

São histórias de exceções tratadas como regras. Acasos improváveis com ares de certeza. E estão bem aí, nos livros que você compra.

2 pensamentos em “o golfinho benevolente”

  1. Criatividade e autoajuda

    Muitos autores já mostraram que uma dose de fracasso é um componente necessário à construção do sucesso – desde que você consiga aprender com seus erros, é claro. Em Adapt, Tim Harford lembra que o erro é parte integrante do processo de tentativa e err…

  2. Eu estava fazendo algo completamente cult. Aí quando eu estava trocando de canais e passou por “2 Broke Girls” 😉 rolou o diálogo: “No-one has any luck. With the possible exception of Lindsay Lohan’s lawyer”. ^.^

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