a falácia da validação pessoal

- Eu sou aquele ali, olha.
– Eu sou aquele ali, olha.

Você está numa sala de aula participando de um projeto sobre ferramentas de avaliação de personalidade. Acabou de preencher um questionário, avaliando até que ponto concorda com frases do tipo: “você tem necessidade que as pessoas gostem de você e admirem-no” e “você tende a ser muito crítico consigo mesmo”.

Neste momento, recebe o resultado da avaliação que traça o seu perfil psicológico e fica particularmente satisfeito em ler coisas do tipo:


“Tem inteligência e atenção acima da média. Fica deprimido às vezes, mas não a ponto de ser considerado mau humorado, porque normalmente é alegre e otimista. É dotado de boa disposição, embora já tenha precisado lutar para controlar seus impulsos e temperamento. É ambicioso e merece crédito por buscar sempre o melhor para você e aqueles mais próximos”.

A tarefa seguinte é avaliar o quão fiel é a dita análise e, numa escala de 0 (pouco fiel) a 5 (retrato fiel), dá 4 para não parecer previsível demais. Iria para casa muito satisfeito da vida consigo mesmo, se o pesquisador não tivesse revelado que TODOS os participantes do estudo receberam exatamente a mesma descrição de perfil e, ainda pior, que a média das avaliações ficou em 4,26.

Isto significa que as outras 38 pessoas da sala são rigorosamente idênticas a você. Ao menos enquanto você acreditar neste tipo de avaliação.

A situação descrita acima de fato ocorreu – não com você, espero – há mais de 60 anos (precisamente em 1948), num estudo realizado por Bertram Forer, para verificar a validade de instrumentos de autoavaliação psicológica. Desde então, utiliza-se o termo efeito Forer, ou falácia da validação pessoal, para descrever situações nas quais a pessoa identifica-se profundamente com descrições absolutamente genéricas, pelo simples fato de achar que elas são personalizadas – embora não sejam, realmente.

Forer acrescenta1 que “(…) virtualmente qualquer traço psicológico pode ser observado em qualquer ser humano, em algum grau. (…) Não é na presença ou ausência destes traços que as pessoas diferem”. E continua: “Avaliações de personalidade podem ser – e frequentemente são – baseadas em termos tão gerais que não têm validade para a descrição do comportamento”.

Outra característica comum a estas balelas é que elas costumam ter conotação positiva. Mesmo que haja alguma crítica, ela logo é amenizada por algo mais benigno, reforçando a ideia de que você é lindo e maravilhoso. Fica difícil, assim, discordar de uma descrição pessoal recheada de elogios.

Isto inclui os livros de autoajuda, que você sempre acha que foram escritos sob medida para você, mas que diz coisas tão genéricas que poderiam ser aplicadas, também, ao seu cachorro (evitei falar em gatos porque aí é uma personalidade bem mais complexa).

A esta categoria acrescente, também, os Horóscopos – a menos que você acredite ter 583 milhões de pessoas no mundo vivendo as mesmas coisas que você (ou 538 milhões, caso você já tenha incorporado o novíssimo signo de Ophiuchus ao seu Zodíaco).

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1. Baixe o artigo na íntegra, em PDF: FORER, Bertam. The Fallacy of Personal Validation: a Classroom Demonstration of Gullibility. The Journal of Abnormal and Social Psychology, Vol 44(1), Jan 1949, 118-123.

3 pensamentos em “a falácia da validação pessoal”

  1. É isso mesmo! Adorei. rsrs
    Sou psicóloga e já trabalhei com Seleção e odiava ter de aplicar testes de personalidade, mesmo os com validação científica (?).
    Posteriormente fiz um curso de Astrologia e passei a usar o Mapa Astral para selecionar. Neste não dá para mentir e dá um “retrato” perfeito da pessoa (não confunda com horóscopo que é a maior enganação).
    sds e bom domingo

  2. hahahahaha
    a criatura fala que horóscopo é maior enganação e usa mapa astral para seleção de pessoal.
    ah, francamente, né!?
    ela não entendeu a essência da falácia.
    O conselho federal de psicologia deveria saber disso.

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